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  • Aline Paranhos

Relato de Parto

Minha primeira filha, Melissa, nasceu através de uma cesárea desnecessária em 2013, por pura falta de informação minha, já que o sistema obstétrico no Brasil é péssimo e raríssimos profissionais se dão o trabalho de falar honestamente sobre vias de nascimento.


Na segunda gestação, decidi fazer tudo diferente e investi em muita INFORMAÇÃO. Tive uma doula, a Aline Kis (maravilhosa! Não atende mais. Foi viver feliz na Irlanda), contratei uma equipe de parto maravilhosa aqui da Zona Leste de São Paulo, a ComMadre, e me preparei o melhor que pude. Gravidez tranquilíssima.



Numa segunda-feira, 24/04, no meu primeiro dia de licença maternidade, acordei umas 7:30 com diarreia: "ok, comi lanche gorduroso ontem, deve ser isso". De qualquer forma, troquei mensagem com a Aline, mais ou menos assim (perdi o histórico do WhatsAppp):


- Li, estou sentindo uma dorzinha diferente e estou com diarreia

- Mas é dor de barriga ou contração?

- Não sei, nunca tive contração kkkk

- Tá, vai me avisando.


Umas 8:00, mensagem no celular da minha amiga Gisele, que também estava grávida: "Li, tá tudo bem? Acordei pensando em você." Bruxaaaaa.


8:30, mais diarreia e no trajeto de volta para a cama senti um "ploc" no pé da barriga. Começou a escorrer líquido pela minha perna! "Minha bolsa estourou". Estavamos só eu e o Du em casa. Melissa tinha dormido na minha sogra na noite anterior.


Caraca, vai ser hoje, pqp, que legal, ai meu deus, tudo junto. Quem já vivenciou parto, sabe do que estou falando.


Olhei melhor para o líquido, que já tinha feito poça no chão, e vi que estava esverdeado. Tinha mecônio. Tirei foto, enviei para a equipe, que achou que o líquido estava bastante fluido, Aline se organizou para vir para a minha casa. Eu fiquei felizona cantando: "Hoje, é hoje, é hoje, é ho o ji i" na minha melhor imitação de Ludmilla.


Uns 20 minutos depois eu comecei a sentir umas contrações. Eduardo tentando anotar o que dava. Umas 10:30 eu já estava com bastante dor. Fui para a bola embaixo do chuveiro. "Mano do céu, o bagulho é off road". Eu só falava isso, infinitas vezes, me apropriando dessa expressão que uma amiga usou para me relatar o parto dela. Uns 20 minutos depois Aline chegou (uffaaa). Ela me deixou ali no chuveiro, que estava confortável, mas as contrações estavam cada vez mais intensas.


12:00 talvez, chegou Gabriela Miranda, minha parteira. Aline pôs uma sinergia de óleo essencial maravilhosa no difusor para me ajudar, Gabi observou a movimentação no banheiro e pediu para eu sair do chuveiro para me avaliar e monitorar a bebê. 4 cm.


- E isso é bom?

- É ótimo!


Depois disso, as contrações já ficaram beeeem intensas. Aline e Gabi me ajudavam pressionando a minha lombar, que era tudo o que eu conseguia deixar.


Nem sei se as meninas comeram! Eu já estava fora de mim e não parei para pensar nisso, que vergonha! Portanto, mujeres, tenham petiscos para sua equipe de parto!!! Na hora em que o bicho pega a gente pode esquecer de ser boa anfitriã e isso é péssimo com as profissionais (fui saber na prática depois, né, mores).


Os batimentos da bebê foram monitorados diversas vezes, inclusive por conta da presença de mecônio no líquido, mas não apresentaram qualquer sinal de preocupação, só para constar. Quase 14:00, acho, nova avaliação. 7 cm. Gabi sugere ir para o hospital. Eu estava fora do corpo! Que dor era aquela!


- Eu não posso mudar de ideia? A gente não pode ficar aqui mesmo e ter a bebê em casa?

- Não, Li, eu não tenho equipamento para isso, precisamos ir para o hospital.


Eu achava que não daria conta de entrar no carro. Contração é um negócio doido que te leva para outra dimensão. Era eu e meu corpo, e uma breve noção de que havia outras pessoas ali além da bebê querendo sair.


-Tenta gritar, Li. Tenta por para fora "aaaaaa", que ajuda.


Era verdade, Aline. Comecei a vocalizar e sentia que aliviava a pressão no fundo da vagina.


Fiquei mais um tempo andando pra lá e pra cá, entre muitos aaaas, absorvendo o cheiro de óleo essencial no ar, misturado com um cheiro adocicado do líquido amniótico, que virava e mexia molhava o chão. Fora de mim e dentro de mim ao mesmo tempo.


Num dado momento a gente foi para o hospital. Fui de joelhos no banco de trás do carro, com os antebraços apoiados no encosto de cabeça, amparada pela Aline. Era super perto. Chegamos rápido, mas não lembro que horas. Fiz a infeliz da triagem, Nathalia Gaiani, minha obstetra querida chegou bem nessa hora e aí eu já estava chorosa. Não lembro a dilatação, mas fui liberada direto para a Delivery Room. Fui para lá aos gritos a cada contração. Não eram xingos em ninguém, não eram palavras. Era só aquele som que vinha da minha alma e reverberava nas minha cordas vocais. Tenho MUITA saudade dessa sensação. Sério.


Na sala de parto, banheira quente, mais aromaterapia, alguns pedidos de ajuda. Eu disse várias vezes que não ia aguentar, que precisava de ajuda, mas eu não ousava pronunciar "anestesia", porque eu sabia que não queria. Assim que a contração passava, a ideia da anestesia passava junto para mim.


Quando eu já estava cansada, umas 16:30, talvez, pedi a danada da "ajuda" e minha obstetra me explicou uma vez mais os prós e contras de uma anestesia e me propôs fazermos um toque antes de decidir (ô, diferença que faz estar bem atendida!). Para minha total surpresa, já estava com dilatação total! Decidi ali que eu, sim, dava conta de parir naturalmente.


Tentei sair da banheira pra me movimentar um pouco e ajudar a Mirela a descer, não consegui. Aline veio para perto, eu confessei para ela que "estava me cagando de medo" de ter muita dor quando a bebê passasse, ela sorriu e me explicou que "o pior já tinha passado", que o nascimento em si não era dolorido como as contrações. E ela tinha razão mais uma vez.


Elas me organizaram na banheira, colocaram um apoio de toalhas para a minha cabeça e eu comecei a perceber que as contrações já não doíam tanto. Aqueles aaaaas, tinham se transformado num arrrghh que me dava vontade de empurrar.


Consegui ouvir a música da playlist da Aline nessa hora. Estava rolando Anunciação, do Alceu Valença. Olhei para a borda da banheira e vi os rostos delas: Aline, Gabriela, Nathália e Nicole, a Martin, nossa pediatra que havia chegado em algum momento que nem vi. Atrás de mim, com a cabeça perto da minha, estava o Eduardo. Eu me senti amparada.


Olhei nos olhos da Aline, me ancorando neles:


- Li, o que que eu faço?

- Você já está fazendo, Li. É só isso. Você já está fazendo.


Pronto, chave virada. Naquelas poucas palavras da minha doula eu entendi tudo. Eu já estava fazendo. Comecei a sorrir, levantei o dedo e avisei: agora vai nascer.


Anunciação tinha acabado. Estava tocando Paciência, do Lenine. Veio outra contração, eu tomei coragem e deixei fluir. Não senti o tal círculo de fogo, só senti minha filha passando. Gabi pegou a bebê na água e me entregou no colo, sem chorar, só me olhando com aqueles olhinhos curiosos, piscantes, apertados entre um par de bochechas enormes. Ela não chorou, mas lembro da cara de cada uma das mulheres que estavam ali comigo, chorando na borda da banheira. Foi tão, tão lindo.





Aquele chororô emocionado de todo mundo, eu agradecendo profunda e sinceramente aquele apoio essencial (tanto de essência de necessidade quanto de essência do ser, mesmo) uma examinadinha rápida na bebê no meu colo, uma toalhinha seca posta sobre ela. "Caramba, tô me sentindo muito foda". Falei essa frase talvez uma dezena de vezes.





E foi assim que, há quatro anos, num parto natural humanizado, nasceu Mirela.